Perinatalidade

13 de agosto de 2026

1- O que é matrescência e quais emoções estão envolvidas no processo de tornar-se mãe

Matrescência é um processo de transição amplo e intenso que as mulheres vivenciam quando se tornam mães. É um período de transformações físicas, psíquicas, relacionais e na identidade da mulher que se torna mãe. Por ser tão abrangente e profundo, esse processo pode ser entendido como uma reconfiguração ontológica ou um nascimento psicológico, já que a forma de existir e entender a vida e o mundo são reorganizadas, ressignificadas, gerando vários processos de luto: do corpo que que mudou, do tempo que ficou escasso, da identidade anterior. As mudanças, portanto, não são apenas biológicas e hormonais, mas sociais, cognitivas, emocionais e de papéis, resultando em um turbilhão se emoções como alegria, plenitude, medo, cansaço extremo, sensação de perda de autonomia, culpa, gratidão. Esses sentimentos ambivalentes são legítimos e esperados, embora muitas mães sintam-se confusas e culpadas em sentí-los, principalmente em função do ideal de mãe presente em nossa cultura, dificultando a elaboração dessa experiência tão significativa.

2- Sintomas que alertam para possível depressão pós-parto

Alguns sintomas quando sentidos intensamente de forma a prejudicar o funcionamento diário e por mais de 2 semanas, podem ser um sinal de alerta para o desencadeamento da depressão perinatal (durante a gestação ou no pós-parto). Abaixo estão os sintomas mais comuns:

• Tristeza intensa, sensação de vazio, desesperança e choro frequente sem motivo aparente;

• Perda de interesse e prazer nas atividades diárias, incluindo perda de interesse nos cuidados com o bebê ou sensação de distância afetiva em relação à criança;

• Desânimo e cansaço que não melhoram mesmo após algum descanso, com dificuldade para realizar as

É importante refletirmos que na gestação e no puerpério há muitos desafios diante da necessidade de uma infinidade de adaptações e transformações, por isso, o diagnóstico de depressão pós-parto deve ser bastante cuidadoso, não banalizando a tristeza na maternidade nem a superestimando. A avaliação precisa portanto ser sensível, de forma a considerar todo o contexto da mulher que se tornou mãe. Além disso, cada mulher pode sentir e expressar de maneiras diversas o sofrimento psíquico, o que faz pensarmos em “depressões perinatais” no plural e não apenas em um único conjunto de sintomas. Falta de prazer, perda de interesse, irritabilidade, agressividade, angústia, tensão, pessimismo, transtorno de sono, lentidão psicomotora, rebaixamento do humor, inibição, autodepreciação, agitação ansiosa, desinvestimento de si, são alguns dos sintomas que podem estar presentes ou não, em maior ou menor intensidade, em diferentes momentos da perinatalidade. Alguns sintomas somáticos também podem surgir: dores de cabeça, problemas digestivos, sensação de sufocamento, dores de garganta.

É importante pontuar que em nossa cultura, as mães em sua grande maioria, ficam relegadas ao isolamento nos cuidados do bebê, e por isso, desassistidas e desvitalizadas. Além desse fator, o alto grau de exigência imposto pela sociedade às mães e por elas próprias em decorrência do “ideal da mãe perfeita e abnegada”, também contribui decisivamente para o adoecimento emocional das mulheres na maternidade.

Há também os fatores de risco para depressão pós-parto que são investigados nas primeiras sessões de psicoterapia, como: histórico de depressão, depressão ou ansiedade gestacional, histórico pessoal ou familiar de bipolaridade, transtorno de personalidade, conflitos conjugais e violência doméstica, vulnerabilidade econômica e precariedade, isolamento social e afetivo e baixo suporte social ou ruptura familiar.

3- Os principais desafios da maternidade e como a psicoterapia junguiana pode ajudar

Tornar-se mãe é uma experiência que envolve cuidar integralmente de outro ser humano. Este ato de cuidado envolve investimento, mudanças e adaptações em todos os aspectos da vida: emocional, relacional, social. As condições culturais nas quais a mulher vivencia a maternidade também influenciam fortemente na quantidade e no nível dos desafios enfrentados. O ideal de “boa mãe” é o imaginário coletivo da mãe abnegada, que atravessa todas as mulheres, podendo tornar o cuidado de um filho algo mais desgastante do que deveria ser, já que gera sobrecarga, culpa e pressão constantes para corresponder a esta imagem de mãe perfeita.

Passar pela gestação, parir, atravessar o puerpério, adotar uma criança, em si mesmos, já são desafiadores, seja fisicamente e emocionalmente, exigindo dos cuidadores, habilidades, recursos e estratégias para cada fase do crescimento da criança.

Algumas das principais dificuldades que as mães podem sentir são:

• Dificuldade de encontrar espaço para si em função das demandas constantes do bebê e falta de rede de apoio;

• Exaustão física e mental pela privação de sono;

• Culpa e perfeccionismo por ter a sensação de nunca estar fazendo o suficiente como mãe;

• Medo de não dar conta da nova rotina, gerando preocupação constante sobre o parto, amamentação e todas as demandas que um bebê exige;

• Sensação de perda da identidade, de ser engolida pelo papel materno e não conseguir se reconhecer mais como mulher;

• Dificuldade de conciliar trabalho e maternidade, sentindo sobrecarga e exaustão;

• Mudanças no vínculo conjugal com impactos na comunicação do casal, na divisão de tarefas e na vida sexual.

A psicoterapia junguiana pode ajudar no sentido de compreender a matrescência como uma travessia psíquica de transformação profunda, não apenas como um conjunto de sintomas ou tarefas. O sofrimento materno é escutado em sua totalidade, considerando todo o contexto da mulher que se torna mãe, entendendo este período como uma transição que envolve crise de identidade, processos de luto, de reorganização simbólica da vida e de ressignificações profundas.

• Ajuda a elaborar a ambivalência materna, acolhendo amor, raiva, culpa, medo e desejo de fuga sem reduzir isso a “frieza” ou “incapacidade”;

• Favorece a reconstrução da identidade, integrando mulher, profissional, parceira e mãe sem exigir perfeição em nenhum desses papéis;

• Trabalha sonhos, fantasias, imagens e símbolos, que muitas vezes expressam conflitos inconscientes ligados ao arquétipo materno, ao corpo e à história pessoal, mas também cultural e coletiva;

• Permite reconhecer conteúdos de sombra, como agressividade, inveja, ressentimento ou ambivalência, sem moralização, para que possam ser integrados de forma mais consciente;

• Fortalece um sentido próprio de maternagem, mais singular e menos submetido a ideais externos ou à pressão social, ajudando a mulher a articular o seu processo de individuação.

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